A cantora Bianca Cirillo sabe onde quer chegar. Aos 21 anos, é uma das vozes aplaudidas na noite paulistana. Questionada sobre o caminho ao sucesso, disparou: "Fiquei mais conhecida no Bar Brahma do que no Raul Gil".
"As crianças crescem sem saber quem são os artistas da Bossa Nova, Tropicália, entre outros gêneros. Mas de quem é a culpa? Acredito que seja dos pais que não incentivam os pequenos a escutarem coisas novas ou conhecerem estilos"
Ana Carolina Moro
De Suzano
Trecho de uma das mais conhecidas músicas de Gonzaguinha, "Eterno Aprendiz", "Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar beleza de ser um eterno aprendiz" descreve bem a jovem cantora Bianca Cirillo, de 21 anos. A suzanense descobriu seu talento para o canto aos 5 anos de idade e desde então tem se dedicado ao ofício.
Filha de músico, seguiu a profissão do pai. Fez aulas de canto, de piano, toca pandeiro e "arrisca" no violão. Para se profissionalizar, cursa faculdade de Música na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) Tom Jobim. Hoje, ela vive da música. Cantar é tudo o que sabe fazer, diz. Não pensa em outra coisa. Para complementar a renda, dá aulas de canto em uma escola particular em Suzano, mas, se precisar desmarcar com os alunos para fazer uma apresentação, não pensa duas vezes. Projetos? Concluir uma apresentação sobre a vida e obra de Noel Rosa.
Lidar com o sucesso para ela não é problema. Bianca faz questão de dizer que as pessoas são iguais e que devem ser tratadas assim. Vida social, porém, é um pouco conturbada. Apesar de os amigos afirmarem não ter problemas, muitos não entendem a decisão de se dedicar apenas à música. Lugar que ela mais gosta de cantar? Todos os que já passou, como Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já Suzano é onde ela se sente em casa. "Minha vida começa aqui". Nesta entrevista, ela fala sobre carreira, influências artísticas e o fim do MPB
Diário do Alto Tietê: De onde surgiu a ideia de cantar?
Bianca Cirillo: Cantar não é simplesmente uma ideia que vem à cabeça, é descobrir o dom para o ofício. Meu pai, Vilson Cirillo, sempre foi músico e, pouco tempo antes de eu nascer, tocava em bandas de baile. O conhecimento dele foi o que mais me influenciou a gostar da música, neste caso da MPB. Aos 5 anos, já cantava em festas de criança e estava sempre acompanhada pelo meu pai. Cresci escutando diversos sons e fui descobrindo o meu talento. Na verdade, todo mundo tem, mas poucos desenvolvem o lado artístico.
DAT: Qual foi a participação da sua família no início da sua carreira?
Bianca: Quando se tem alguém em casa que já trabalha ou já trabalhou em algum momento com música, tudo fica mais fácil. Meu pai sempre me apoiou, me incentivou e até me ajudou a encontrar lugares para cantar. Ele costumava dizer que cantar todo mundo canta, mas viver disso é diferente de ser um hobbie. E ele tinha razão. Minha mãe é a única que, às vezes, questiona se a decisão é mesmo a correta, mas no fim está sempre do meu lado. Ter um lar estruturado faz com que as dificuldades sejam ultrapassadas sem problemas.
DAT: Como foi o início da sua carreira?
Bianca: Com mais ou menos 13 anos, comecei a fazer aulas de piano com uma amiga e, acho que pela idade, logo desisti. Na mesma época, comecei a cantar. Ingressei no Coral Municipal de Suzano e, em pouco tempo, virei solista. Aos 15 anos, já havia formado o meu próprio repertório, para cerca de duas horas de show. Foi aí que meu pai e meu irmão descobriram um bar em São Paulo e eu comecei a cantar. Durante um ano e meio fiz apresentações todas as sextas-feiras até conseguir um repertório para quatro horas de show. Hoje, ao lado do meu pai, faço exibições quando sou convidada e ainda integro a rede de hotéis Novotel.
DAT: Quais as maiores dificuldades pelas quais passou e ainda assim enfrenta para seguir em frente com a sua carreira?
Bianca: Não me importo muito com elas. Tanto que faço questão de esquecer que já passei por alguma. Eu prefiro pensar nas coisas que preciso fazer para ter uma carreira sólida. O complicado de seguir com a linha musical, a qual eu me dedico, no caso a MPB, é ver como o público é muito seleto e que, muitas vezes, esquecem de valorizar e também investir na cultura. Um músico hoje em dia não tem muito espaço e, se não tiver alguém que o patrocine, vai ser difícil ele viver apenas da música. No entanto, se a pessoa gosta mesmo, como eu, não se importa rá com os problemas.
DAT: Quais cantores influenciam o seu repertório?
Bianca: Referência para mim são pessoas como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e a internacional Diana Krall. Também me inspiro em Djavan, Noel Rosa e Chico Buarque, principalmente.
DAT: Você se dedica apenas à música ou tem algum outro trabalho?
Bianca: Não. Nasci para cantar e vivo apenas disso. Eu nunca pensei em fazer outra coisa que nao fosse música. Se eu cheguei a pensar que não era o certo para mim, e questionei qual seria esta segunda profissão, não meu veio nenhuma ideia à cabeça. É difícil viver apenas disso? Sim, mas qualquer profissão que se queira seguir também é. Eu ganho o mesmo que muitas amigas que tem uma trabalho "normal" e, por vezes, chego a receber bem mais que elas. Tudo o que eu tenho conquistei cantando. O que torna a minha profissão complicada é o meu estilo de música e o público seleto.
DAT: Existem pessoas que trabalham durante o dia e à noite são músicos, cantando em bares. É possível conciliar uma outra profissão e a música?
Bianca: Acho muito difícil; sem contar que cada um deve seguir a profissão que escolheu para a vida. Se a pessoa já atua em um ramo diferente, dê espaço para o músico fazer o seu trabalho. Fazer música exige muita determinação e dedicação do cantor. Eu fico o dia inteiro no computador procurando sons, descobrindo novos repertórios, estudando os artistas que me influenciam. É preciso ter muita referência e também tempo para aprender. Se eu escolhi como profissão cantar, vou fazer isso da melhor forma possível, me empregar ao máximo, e é o que cada pessoa deveria fazer com o próprio emprego.
DAT: Você já participou do Programa Raul Gil. Apresentar-se em programas de auditório ajuda a alavancar a carreira de um artista?
Bianca: Eu acredito que, hoje, isso já não faz mais diferença. Quem sai ganhando sempre é o apresentador. Eu fiquei mais conhecida depois que passei a cantar no Bar Brahma, em São Paulo, do que quando eu estava no Raul Gil. É interessante para quem tem um suporte, como, por exemplo, patrocinadores. No entanto, para quem deseja apenas conseguir se promover é difícil. É preciso ter muito talento e sorte.
DAT: Novos estilos de música, como os das "bandas coloridas", a exemplo de Fresno, NxZero, Hory, entre outras, estão tirando o espaço da MPB?
Bianca: As crianças hoje crescem sem saber quem são os artistas da Bossa Nova, Tropicália, entre outros gêneros. Mas de quem é a culpa disso tudo? Acredito que seja dos pais que não incentivam os pequenos a escutarem coisas novas ou a conhecerem estilos de música diversos. A televisão também tem a sua parcela de responsabilidade. A mídia, em geral, tem mostrado apenas aquilo que o público quer escutar e o que está na moda. Acredito que deveriam diversificar um pouco mais. Nestas horas, me pergunto se as pessoas não gostam de MPB porque não conhecem ou porque de fato é um estilo mais elitizado. As pessoas atualmente estão crescendo pobres de cultura.