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Entrevista de Domingo | Bianca Cirillo
» Publicado em 05|09|10
Uma vida, um canto
A cantora Bianca Cirillo sabe onde quer chegar. Aos 21 anos, é uma das vozes aplaudidas na noite paulistana. Questionada sobre o caminho ao sucesso, disparou: "Fiquei mais conhecida no Bar Brahma do que no Raul Gil".
Jorge Moraes
"As crianças crescem sem saber quem são os artistas da Bossa Nova, Tropicália, entre outros gêneros. Mas de quem é a culpa? Acredito que seja dos pais que não incentivam os pequenos a escutarem coisas novas ou conhecerem estilos"
Ana Carolina Moro
De Suzano
Trecho de uma das mais conhecidas músicas de Gonzaguinha, "Eterno Aprendiz", "Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar beleza de ser um eterno aprendiz" descreve bem a jovem cantora Bianca Cirillo, de 21 anos. A suzanense descobriu seu talento para o canto aos 5 anos de idade e desde então tem se dedicado ao ofício.

Filha de músico, seguiu a profissão do pai. Fez aulas de canto, de piano, toca pandeiro e "arrisca" no violão. Para se profissionalizar, cursa faculdade de Música na Escola de Música do Estado de São Paulo (Emesp) Tom Jobim. Hoje, ela vive da música. Cantar é tudo o que sabe fazer, diz. Não pensa em outra coisa. Para complementar a renda, dá aulas de canto em uma escola particular em Suzano, mas, se precisar desmarcar com os alunos para fazer uma apresentação, não pensa duas vezes. Projetos? Concluir uma apresentação sobre a vida e obra de Noel Rosa.

Lidar com o sucesso para ela não é problema. Bianca faz questão de dizer que as pessoas são iguais e que devem ser tratadas assim. Vida social, porém, é um pouco conturbada. Apesar de os amigos afirmarem não ter problemas, muitos não entendem a decisão de se dedicar apenas à música. Lugar que ela mais gosta de cantar? Todos os que já passou, como Rio de Janeiro e Minas Gerais. Já Suzano é onde ela se sente em casa. "Minha vida começa aqui". Nesta entrevista, ela fala sobre carreira, influências artísticas e o fim do MPB

Diário do Alto Tietê: De onde surgiu a ideia de cantar?
Bianca Cirillo:
Cantar não é simplesmente uma ideia que vem à cabeça, é descobrir o dom para o ofício. Meu pai, Vilson Cirillo, sempre foi músico e, pouco tempo antes de eu nascer, tocava em bandas de baile. O conhecimento dele foi o que mais me influenciou a gostar da música, neste caso da MPB. Aos 5 anos, já cantava em festas de criança e estava sempre acompanhada pelo meu pai. Cresci escutando diversos sons e fui descobrindo o meu talento. Na verdade, todo mundo tem, mas poucos desenvolvem o lado artístico.

DAT: Qual foi a participação da sua família no início da sua carreira?
Bianca:
Quando se tem alguém em casa que já trabalha ou já trabalhou em algum momento com música, tudo fica mais fácil. Meu pai sempre me apoiou, me incentivou e até me ajudou a encontrar lugares para cantar. Ele costumava dizer que cantar todo mundo canta, mas viver disso é diferente de ser um hobbie. E ele tinha razão. Minha mãe é a única que, às vezes, questiona se a decisão é mesmo a correta, mas no fim está sempre do meu lado. Ter um lar estruturado faz com que as dificuldades sejam ultrapassadas sem problemas.


DAT: Como foi o início da sua carreira?
Bianca:
Com mais ou menos 13 anos, comecei a fazer aulas de piano com uma amiga e, acho que pela idade, logo desisti. Na mesma época, comecei a cantar. Ingressei no Coral Municipal de Suzano e, em pouco tempo, virei solista. Aos 15 anos, já havia formado o meu próprio repertório, para cerca de duas horas de show. Foi aí que meu pai e meu irmão descobriram um bar em São Paulo e eu comecei a cantar. Durante um ano e meio fiz apresentações todas as sextas-feiras até conseguir um repertório para quatro horas de show. Hoje, ao lado do meu pai, faço exibições quando sou convidada e ainda integro a rede de hotéis Novotel.

DAT: Quais as maiores dificuldades pelas quais passou e ainda assim enfrenta para seguir em frente com a sua carreira?
Bianca:
Não me importo muito com elas. Tanto que faço questão de esquecer que já passei por alguma. Eu prefiro pensar nas coisas que preciso fazer para ter uma carreira sólida. O complicado de seguir com a linha musical, a qual eu me dedico, no caso a MPB, é ver como o público é muito seleto e que, muitas vezes, esquecem de valorizar e também investir na cultura. Um músico hoje em dia não tem muito espaço e, se não tiver alguém que o patrocine, vai ser difícil ele viver apenas da música. No entanto, se a pessoa gosta mesmo, como eu, não se importa rá com os problemas.


DAT: Quais cantores influenciam o seu repertório?
Bianca:
Referência para mim são pessoas como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e a internacional Diana Krall. Também me inspiro em Djavan, Noel Rosa e Chico Buarque, principalmente.

DAT: Você se dedica apenas à música ou tem algum outro trabalho?
Bianca:
Não. Nasci para cantar e vivo apenas disso. Eu nunca pensei em fazer outra coisa que nao fosse música. Se eu cheguei a pensar que não era o certo para mim, e questionei qual seria esta segunda profissão, não meu veio nenhuma ideia à cabeça. É difícil viver apenas disso? Sim, mas qualquer profissão que se queira seguir também é. Eu ganho o mesmo que muitas amigas que tem uma trabalho "normal" e, por vezes, chego a receber bem mais que elas. Tudo o que eu tenho conquistei cantando. O que torna a minha profissão complicada é o meu estilo de música e o público seleto.

DAT: Existem pessoas que trabalham durante o dia e à noite são músicos, cantando em bares. É possível conciliar uma outra profissão e a música?
Bianca:
Acho muito difícil; sem contar que cada um deve seguir a profissão que escolheu para a vida. Se a pessoa já atua em um ramo diferente, dê espaço para o músico fazer o seu trabalho. Fazer música exige muita determinação e dedicação do cantor. Eu fico o dia inteiro no computador procurando sons, descobrindo novos repertórios, estudando os artistas que me influenciam. É preciso ter muita referência e também tempo para aprender. Se eu escolhi como profissão cantar, vou fazer isso da melhor forma possível, me empregar ao máximo, e é o que cada pessoa deveria fazer com o próprio emprego.

DAT: Você já participou do Programa Raul Gil. Apresentar-se em programas de auditório ajuda a alavancar a carreira de um artista?
Bianca:
Eu acredito que, hoje, isso já não faz mais diferença. Quem sai ganhando sempre é o apresentador. Eu fiquei mais conhecida depois que passei a cantar no Bar Brahma, em São Paulo, do que quando eu estava no Raul Gil. É interessante para quem tem um suporte, como, por exemplo, patrocinadores. No entanto, para quem deseja apenas conseguir se promover é difícil. É preciso ter muito talento e sorte.


DAT: Novos estilos de música, como os das "bandas coloridas", a exemplo de Fresno, NxZero, Hory, entre outras, estão tirando o espaço da MPB?
Bianca:
As crianças hoje crescem sem saber quem são os artistas da Bossa Nova, Tropicália, entre outros gêneros. Mas de quem é a culpa disso tudo? Acredito que seja dos pais que não incentivam os pequenos a escutarem coisas novas ou a conhecerem estilos de música diversos. A televisão também tem a sua parcela de responsabilidade. A mídia, em geral, tem mostrado apenas aquilo que o público quer escutar e o que está na moda. Acredito que deveriam diversificar um pouco mais. Nestas horas, me pergunto se as pessoas não gostam de MPB porque não conhecem ou porque de fato é um estilo mais elitizado. As pessoas atualmente estão crescendo pobres de cultura.

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