Ligado ao movimento sindical desde o período da repressão, Ted mobilizou mais de dois mil servidores em protesto pelas ruas contra o governo petista de Marcelo Candido
"Jamais pensei que Suzano teria uma greve desta envergadura, de servidores descontentes gritando na rua aos quatro cantos que o prefeito não apresentou proposta, justamente em uma administração do PT"
Delcimar Ferreira
De Suzano
Poucas vezes se tem a dimensão das mudanças que acontecem em uma cidade. Nesta semana, porém, ele se tornou protagonista do episódio que marcará a história de Suzano. O homem que mobilizou a primeira greve geral do funcionalismo suzanense, o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais, Cláudio Aparecido dos Santos, o Ted, analisa, nesta entrevista ao DAT, a mobilização que reuniu mais de duas mil pessoas em protesto por aumento salarial e melhores condições de trabalho. Marrento, Ted, que ganhou este apelido na infância nos tempos de Telecatch, lembra de quando iniciou no sindicalismo em 1976 e assistiu os piquetes do então líder sindical dos Metalúrgicos do ABC, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Hoje, aos 55 anos, ele dá sua versão do estopim do movimento que invadiu as ruas centrais de Suzano. "Em 2009, o prefeito (Marcelo Candido, PT) nos assegurou que havia fechado uma proposta boa, mas protelou. A assembleia de trabalhadores decidiu então abandonar a comissão". O sindicalista deixa claro que nesta terça-feira, durante dissídio coletivo no Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região, em São Paulo, não vai abrir mão do reajuste e da recomposição das perdas dos últimos cinco anos.
Diário do Alto Tietê: De onde vem o apelido Ted?
Claudio Aparecido dos Santos, o Ted: Vem das lutas do Telecatch. Tinha o Ted Boy Marino, briguento. Quando me chamavam por esse apelido eu ficava nervoso. Aí todos brincam para te deixar mais irritado e no fim acaba colando. Acabei me acostumando com isso.
DAT: Quando veio para Suzano e onde estudou?
Ted: Nasci na Penha, na capital, e vim para Suzano aos 9 anos. Morava no Jardim Suzano e atualmente moro no Jardim das Flores. Tenho o segundo grau completo, que fiz por correspondência. Mas estudei no antigo Serviço Social da Indústria, que depois passou a ser o Liceu Santo Antônio, onde hoje fica o Banco Real.
DAT: Quando entrou para o movimento sindical?
Ted: Essa aproximação foi em uma época em que não tinha liberdade. Em 1976, participei do movimento do ABC e em vários outros lugares. Tinha amizade com o Joaquim dos Santos Andrade, o Joaquinzão, dirigente sindical de São Paulo. Na época ficava no apoio, ajudando em piquetes em portas de fábrica. Não cheguei a ser preso, mas tomei alguns empurrões e borrachadas.
DAT: Chegou a assistir algum piquete do então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva?
Ted: Muitas vezes fiquei na frente da Volkswagen em São Bernardo do Campo. Rendo minhas homenagens a ele, porque enquanto dirigente sindical foi uma pessoa que deu uma dinâmica ao movimento, que elevou a qualidade dos sindicatos. Criou muitas lideranças. Falava o que o trabalhador queria.
DAT: O sr., como dirigente sindical, começou já no Sindicato dos Servidores Públicos ou antes passou por outro órgão?
Ted: Sempre fui ligado a alguns sindicatos. Trabalhei na administração suzanense desde 16 de maio de 1983. Na gestão de Firmino José da Costa, ajudei na campanha dele, em 1982, quando ele se elegeu. Perdi o emprego na Cia. Suzano e vim para a prefeitura, para trabalhar como servente. Rocei muito mato na beira dos rios Una e Guaió e depois voltei à função de motorista. Dirigi ambulância, passei a encarregado, que hoje se chama oficial de mutirão. Sou um dos fundadores do sindicato, criado em 29 de janeiro de 1989. Entrei como tesoureiro e ajudei o primeiro presidente, Vagner Vicentini, a assumir o cargo. Após a renúncia dele, assumiu o vice-presidente José Carlos Germano. No próximo mandato, fomos elevados à presidente. Fiquei de 1992 até 1998. E desde 2001 estamos reerguendo a entidade.
DAT: Atualmente você é filiado a algum partido político?
Ted: A decepção foi tão grande com o PC do B que nem sei mais se sou (risos). Mas já saí candidato a vereador pelo PMDB e apoiei o candidato a prefeito Paulo Tokuzumi.
DAT: A prefeitura alega que o sindicato deixou a comissão de negociação. O que aconteceu, por que houve ruptura?
Ted: Que fique claro, não era comissão de negociação. O grupo era para discutir a reversão do regime, o estatuto e planos de carreira. Em 2007, a secretária de Educação, Aparecida Peres, abriu um canal para criarmos um grupo de trabalho e discutirmos o estatuto. O prefeito fez um decreto para a criação da comissão tripartite (sindicato, trabalhadores da Educação e Executivo). Em 2 de abril de 2008 nos reunimos com Candido e ele fez a seguinte colocação: "Ted, infelizmente a partir do dia 9 deste mês não posso mais dar reajuste por causa da lei eleitoral. Como já equilibrei as contas, se eleito for, o servidor será prioridade". A categoria deu uma oportunidade ao prefeito. Ele foi reeleito e recomeçamos as tratativas. Conversamos com o prefeito duas vezes e colocamos esta condição. Ele nos disse: "Estou fechando uma proposta boa". Mas ele protelou.
DAT: E por que as negociações não avançaram?
Ted: Em agosto de 2009, assim que o prefeito voltou de licença, agendou uma reunião no dia 27. Convoquei assembléia para o dia 3 de setembro. Ele me ligou no dia 29 e falou que íamos conversar numa sexta-feira, às 18 horas no gabinete. Estava em um congresso na Praia Grande, saí de lá, fui à prefeitura e tive a grata surpresa de saber que não seria atendido e que o encontro seria na segunda, 9 horas. No dia 3 de setembro, no horário combinado, a diretoria foi ao Paço e o secretário de Administração, Joel de Barros Bittencourt, disse: "Ted, vamos retomar a comissão para discutir a reversão do regime, estatuto e os planos de carreira". Perguntei qual a proposta que o prefeito tinha para nós e ele titubeou: "Olha, o prefeito se equivocou, porque ele não pode dar nada". Disse para ele: "Então vamos conversar com a categoria". Inclusive ele se dispôs a ir à assembleia expor a situação, mas recuou. Fiz a assembléia e expus o quadro. Eles decidiram que não deveríamos mais participar da comissão enquanto não se apresentasse uma proposta de aumento salarial, reposição das perdas e uma mesa de negociação permanente. Em 2010, com a ameaça de paralisação na Educação, convoquei a assembleia em 7 de abril de 2010, quando mais de 200 servidores aprovaram a greve. Jamais pensei que Suzano teria uma greve desta envergadura, de servidores descontentes gritando na rua aos quatro cantos que o prefeito não apresentou proposta, justamente em uma administração do PT. Infelizmente o senhor Marcelo Candido não tem pessoas ao redor com competência para instruí-lo. E olha que há várias lideranças que vieram de sindicatos ao lado dele e que sabem o que é o estopim de uma greve. Quando não tem negociação, o estopim se acende e a greve estoura. Tem data para começar e só Deus sabe em quando terminar e em que situação ela vai terminar.